Talvez alguns animais não cheguem apenas para ser cuidados.
Talvez também cheguem para fazer guarda.
Sempre acreditei que acolher uma vida exige responsabilidade. Se me falta o necessário para minha própria sobrevivência, saúde, estudo, descanso e dignidade, não considero justo assumir outra vida sob meus cuidados.
Animais não são adornos da nossa existência. São vidas. E merecem presença, alimento, proteção, atenção e respeito tanto quanto nós.
Por isso, durante muito tempo pensei que só deveria ter um animal quando pudesse oferecer a ele tudo isso com dignidade.
Mas a vida conhece caminhos que nós desconhecemos.
E eles começaram a chegar.
Pássaros.
Gatos.
Alguns porque alguém já não podia cuidar. Outros porque adoeceram e deixaram de interessar a quem os criava.
E eu os acolhi.
Até que chegou aquele que eu jamais imaginaria ter.
Um pitbull.
Pequenino, ainda filhote, com um olhar tão manso que parecia não saber o tamanho que um dia teria.
Hoje, quase seis anos depois, são mais de cinquenta quilos de presença caminhando pela casa.
E foi convivendo com todos eles que alguma coisa em mim mudou.
Percebi que talvez eu nunca tivesse sido apenas aquela que acolheu.
Foram eles que também me acolheram.
Eles se tornaram minhas âncoras.
Quando adoeço, aproximam-se e permanecem silenciosos ao meu redor.
Quando o mundo pesa, deitam-se sossegados ao meu lado, como se dissessem sem palavras: acalme o coração, respire e confie.
Quando me entristeço, enroscam-se em mim e me preenchem de carinho, companhia e ternura.
Não procuram explicações.
Não oferecem conselhos.
Não tentam me convencer de nada.
Não exigem que eu pareça forte.
Apenas ficam.
E há uma espécie de medicina nessa presença silenciosa.
Cada um, à sua maneira, me ensina alguma coisa.
Os pássaros cantam quando está frio, quando faz calor, quando chove. Simplesmente cantam. E muitas vezes esse canto mudou meu estado por dentro, lembrando-me de que as estações passam — e nós também atravessamos as nossas.
Os gatos são outro mistério.
Independentes, atentos, doces, generosos e elegantes.
Ora estão sobre nosso corpo, oferecendo carinho. Ora permanecem enrolados ao nosso lado, aparentemente dormindo. E, dentro daquilo em que acredito e experimento, sinto muitas vezes que alguma coisa também se reorganiza e se harmoniza em nós durante essa presença.
Em outros momentos apenas observam.
Quietos.
Atentos ao ambiente.
E eu os vejo como pequenos guardiões da casa e da vida que acontece dentro dela.
E então existe o Sam.
Meu pitbull.
Ele atravessou problemas de saúde em um período muito próximo ao meu.
Depois do diagnóstico do câncer, outros problemas foram aparecendo em meu corpo. E, de uma maneira que ainda hoje me comove, Sam também começou a adoecer.
Algumas enfermidades pareciam tocar regiões e sistemas muito semelhantes aos que estavam sendo cuidados em mim. Ele precisou de cirurgias, tratamentos e muita atenção.
Nós dois atravessamos tempos de dor, cuidado e regeneração.
Eu me recuperei.
Ele também, embora tenha carregado algumas sequelas.
Não preciso transformar essa experiência em prova de nada.
Não preciso dizer que existe uma explicação sobrenatural para aquilo que aconteceu entre nós.
Mas seria desonesto comigo mesma reduzi-la a uma coincidência vazia.
O que aconteceu teve significado para mim. Profundamente.
Há vínculos que ainda não sabemos nomear.
Há experiências que a ciência continua investigando.
Há formas de presença e cuidado que talvez nossa linguagem ainda não alcance inteiramente.
E existe também aquilo que cada pessoa aprende a reconhecer dentro da própria experiência, sem precisar transformá-lo em verdade universal.
Por isso, o que sinto por eles — pelos que hoje dividem a vida comigo e também por aqueles que já passaram por ela — já não é somente amor.
É reverência.
É gratidão.
A esses irmãos de existência que chegam sem discursos, permanecem sem condições e tantas vezes parecem perceber nossa dor antes mesmo que consigamos explicá-la.
Durante muito tempo pensei que eles precisavam da minha proteção.
Hoje compreendo que, em muitos dos dias mais difíceis da minha vida,
foram eles que fizeram a minha guarda.