Alguns chegaram nos meus braços.
Outros chegaram ao meu portão.
Alguns vieram porque já não eram desejados.
Outros ficaram porque ninguém voltou para buscá-los.
Houve aqueles que meus filhos escolheram e, sem que percebêssemos, acabaram escolhendo ficar comigo.
Durante muito tempo, as pessoas disseram que eu cuidava deles.
Hoje sorrio quando escuto isso.
Porque a vida, com sua delicadeza silenciosa, me ensinou que a história sempre foi outra.
Nunca fui eu quem mais cuidou deles.
Foram eles que cuidaram de mim.
Cada um chegou trazendo um jeito próprio de amar.
Uns eram inquietos, outros serenos. Alguns pareciam vigiar a casa. Outros apenas se deitavam perto de mim, como se soubessem exatamente o dia em que eu precisava de companhia.
Sem discursos, sem julgamentos e sem perguntas, ensinaram uma das formas mais puras de presença que já conheci.
Eles nunca se importaram com o que eu fazia, com o que eu possuía ou com o que o mundo pensava a meu respeito.
Bastava que eu estivesse ali.
Nos dias felizes, celebravam comigo.
Nos dias difíceis, permaneciam.
Nos dias de doença, aproximavam-se ainda mais.
Quantas vezes encontrei consolo em um olhar silencioso, em uma cabeça repousando sobre minhas pernas ou em uma cauda balançando como quem dizia, sem palavras: "Eu continuo aqui."
Talvez seja por isso que eu nunca consiga chamá-los apenas de animais de estimação.
Eles foram meus companheiros de travessia.
Meus guardiões discretos.
Meus terapeutas de patas, focinhos, penas e olhos que pareciam enxergar muito além do que eu conseguia explicar.
Nesta casa, cada um deles ocupa um lugar que ninguém poderá substituir.
Alguns ainda caminham ao meu lado.
Outros continuam vivos apenas nas lembranças.
Mas todos permanecem habitando este coração que aprendeu, com eles, que o amor não precisa da linguagem humana para transformar uma vida.
Se hoje acredito que Deus cuida de nós de infinitas maneiras, é porque aprendi a reconhecer que, muitas vezes, Ele chega silenciosamente... com quatro patas, um olhar cheio de ternura e uma fidelidade que não pede nada em troca.
Esta página é a minha forma de agradecer.
Não por eu tê-los acolhido.
Mas por eles terem escolhido, de algum modo, fazer da minha vida um lugar mais leve, mais alegre e infinitamente mais amoroso.
Eles nunca foram apenas parte da minha história.
Foram parte da minha cura.
Memórias desta sala
Textos que encontraram morada aqui.
Preparando as memórias desta sala…