A vida me chamando de novo
Durante esse tempo, vivi outras tantas vidas. Fui mãe, esposa, terapeuta, dirigente, cuidadora, aprendiz. Atravessei dores, reconstruções, perdas, encontros e uma doença que mudou profundamente a forma como enxergo o tempo.
Agora, às vésperas dos 60 anos, enquanto ainda cuido do meu corpo e atravesso tratamentos que exigem muito de mim, a vida me surpreendeu mais uma vez.
Ela me chamou de volta.
Voltei a ocupar uma mesa de trabalho. A lidar com documentos, números, prazos, decisões, responsabilidades e pessoas. Voltei a usar uma parte de mim que permaneceu silenciosa por décadas, mas que não havia desaparecido.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas deste momento: perceber que a experiência não envelhece quando continua disponível para aprender.
Não estou voltando para provar que ainda sou capaz.
Estou voltando porque ainda há capacidade em mim querendo servir.
Levo comigo aquilo que os anos me ensinaram: organização, responsabilidade, percepção das pessoas, cuidado com as palavras, coragem para encontrar soluções e a consciência de que nenhuma empresa é feita apenas de números. Por trás de cada processo existem histórias, expectativas, medos, sonhos e pessoas tentando fazer o melhor que conseguem.
Também não deixei Deus na porta do escritório.
Minha fé continua comigo. Minha confiança nEle continua comigo. Meu amor por Ele continua comigo.
E isso não precisa ser anunciado o tempo todo para estar presente em tudo.
Está na forma como procuro agir. Na verdade que escolho sustentar. Na responsabilidade com aquilo que me é confiado. Na maneira como trato as pessoas. Na consciência de que todo trabalho pode ser realizado com propósito, dignidade e amor.
Deus em mim não depende do lugar onde estou.
Talvez esse seja o verdadeiro recomeço.
Não apagar aquilo que fui para caber no novo, mas levar comigo tudo o que vivi e permitir que essa mulher — mais madura, mais consciente, ainda imperfeita e profundamente viva — ocupe novos espaços.
Quase 60.
Depois de mais de três décadas, a vida me chama de novo.
E eu não retorno como aquela mulher que um dia deixou o mundo corporativo.
Retorno inteira.
Com histórias nas costas, experiência nas mãos, Deus em mim e confiança para seguir para onde houver propósito.
