DivannRecanto da Luz Divina

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Parte II — O cuidado deixado para depois

As histórias que a Casa conta
A mulher que chegou cansada de pensar


Ela saiu da Sala do Acolhimento diferente de como havia entrado.

O barulho em sua cabeça ainda existia, mas já não gritava. Pela primeira vez em muitos dias, ela ouviu o som dos próprios passos.

Foi então que sentiu um perfume conhecido.

Café recém-passado. Pão fresquinho, dourado na chapa, com a manteiga derretendo devagar.

Um aroma simples e antigo, capaz de atravessar os anos e abrir, sem pedir licença, uma porta da memória.

A Cozinha dos Afetos a esperava.

Ela se sentou. Diante dela, colocaram uma xícara de café com leite e um pãozinho quente com manteiga na chapa.

Antes mesmo do primeiro gole, sentiu-se protegida por aquele cuidado que não precisava ser explicado.

Mordeu o pão.

E as lembranças começaram a chegar.

Primeiro, a menina que havia sido. Depois, a adolescente. Por fim, a mulher que crescera tão depressa que quase não percebeu quando deixou de ser apenas filha para se tornar responsável por tantas vidas.

Vieram o trabalho, os estudos, a casa, os compromissos e a família que começava a formar.

E nasceu nela um desejo: ser para todos aquilo que sua mãe havia sido para ela.

Presença segura. Colo atento. Palavra sábia na hora certa.

Uma mulher alegre, cheia de fé e esperança, capaz de perceber a dor antes mesmo que alguém pedisse ajuda — e também de sentar-se no chão, brincar, rir e transformar dias comuns em lembranças felizes.

Ela quis levar aquele amor para a própria vida.

Mas, na tentativa de cuidar de todos como havia sido cuidada, esqueceu-se de si.

Suas necessidades ficaram para depois.

Depois do trabalho.

Depois da família.

Depois das preocupações.

Depois de tudo.

Até que esse “depois” se transformou em muitos anos.

Ela olhou para a xícara. O café com leite ainda estava quente. A manteiga havia penetrado lentamente no pão, como o carinho que alcança lugares esquecidos há tempo demais.

Talvez a vida nunca tivesse deixado de chamá-la de volta.

Naquele instante, porém, havia algo diferente.

Agora, ela conseguia escutar com a alma.



Amanhã, a Casa a conduzirá até o Quarto do Silêncio.