Nem todo jardim nasce em um quintal.
O meu floresce em vasos.
É um corredor simples, atravessado pelo sol em alguns momentos do dia, em outros pela chuva ou pelo vento e pelo cuidado silencioso de quem aprendeu que algumas presenças precisam apenas de água, tempo e amor para continuarem vivas.
À primeira vista, alguém pode enxergar apenas plantas.
Eu enxergo histórias.
Algumas vieram da casa da minha mãe e continuam crescendo como se carregassem, nas raízes, a memória de suas mãos. Outras chegaram como pequenos brotos, presentes inesperados ou sementes de novos ciclos. Cada uma encontrou um lugar e, aos poucos, passou a fazer parte da minha vida.
São ervas que alimentam.
São ervas que perfumam.
São ervas que aquecem uma xícara de chá em um fim de tarde.
São ervas que acompanham um banho de oração, um momento de recolhimento ou uma refeição preparada com carinho.
Aprendi, com o tempo, que cuidar de uma planta é aceitar um ritmo diferente do nosso.
Nenhuma folha se abre porque temos pressa.
Nenhuma flor desabrocha porque insistimos.
A natureza conhece um tempo que a alma, muitas vezes, esquece.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de caminhar por este corredor.
Enquanto observo uma folha nova surgindo, também me lembro de que a vida continua trabalhando dentro de nós, mesmo quando nada parece estar acontecendo.
Há dias em que converso com elas.
Há dias em que apenas agradeço.
E há dias em que basta tocar uma folha para recordar pessoas, lugares, cheiros e momentos que continuam vivos em mim.
Na minha caminhada espiritual, as ervas sempre foram recebidas com profundo respeito.
Nunca como instrumentos de poder.
Sempre como expressões da inteligência da criação, presentes que a natureza oferece para cuidar, alimentar, fortalecer e recordar que tudo o que vive participa de uma mesma obra.
Este corredor me ensina uma verdade todos os dias.
A cura quase nunca acontece de uma só vez.
Ela cresce em silêncio.
Folha por folha.
Raiz por raiz.
Estação por estação.
Se algum perfume encontrar você enquanto percorre estas páginas, permita que ele desperte uma lembrança boa.
Talvez as ervas façam isso desde o princípio.
Elas não nos convidam a fugir da vida.
Elas nos ajudam a voltar, com mais delicadeza, para aquilo que realmente importa.
Memórias desta sala
Textos que encontraram morada aqui.
Preparando as memórias desta sala…