As histórias que a Casa conta
A mulher que chegou cansada de pensar
Ao deixar a Sala das Lembranças, ela percebeu que caminhava mais leve.
Não porque todas as respostas tivessem chegado.
Mas porque alguns pesos já não caminhavam com ela.
À sua frente, o corredor se abria sob o céu.
A brisa passava pelos canteiros e movimentava delicadamente as folhas, espalhando aromas que pareciam conhecer o caminho até o coração.
Foi então que o alecrim a encontrou.
Ela respirou.
O perfume fresco e intenso penetrou em seus sentidos como se atravessasse cada poro de seu corpo.
Inspirou novamente.
Mais devagar.
Mais fundo.
E sentiu aquele aroma alcançar lugares que o cansaço havia adormecido.
Os ombros relaxaram.
O peito se abriu.
Uma vivacidade esquecida começou a percorrer seu corpo, trazendo consigo uma alegria simples, sem motivo aparente.
Como se a vida, depois de tanto tempo, voltasse a chamá-la pelo nome.
Ela fechou os olhos.
Não havia respostas prontas naquele corredor.
Havia terra.
Folhas.
Vento.
Perfume.
E a presença silenciosa de Deus manifestada nas pequenas coisas que continuam cuidando de nós, mesmo quando já não sabemos como cuidar de nós mesmas.
Talvez a alegria nunca tivesse desaparecido.
Talvez estivesse apenas escondida sob tudo aquilo que ela carregara durante tantos anos.
Ela respirou mais uma vez.
E percebeu que viver não era apenas resistir.
Era também permitir que a beleza nos alcançasse.
Ao lado de um vaso de alecrim, encontrou uma pequena placa de madeira:
“Algumas partes da alma despertam quando o corpo se lembra de respirar.”
Ela sorriu.
Pela primeira vez, não teve pressa de chegar à próxima porta.
Ficou ali.
Presente.
Deixando que o aroma do alecrim devolvesse à sua alma um pouco da força, da alegria e da vontade de viver.
No fim do corredor, uma chama suave iluminava um novo caminho.
Sobre a porta, uma inscrição:
Altar das Entregas.
Amanhã, a Casa lhe mostrará que há pesos que não precisam de mais força. Precisam ser devolvidos.