DivannRecanto da Luz Divina

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A mulher que chegou cansada de pensar

As histórias que a Casa conta
Parte 1 — A porta que soube esperar


Ela chegou no fim da tarde, trazendo nos ombros um cansaço que ninguém podia ver.

Antes mesmo de tocar a aldrava, a porta se abriu devagar, como se a Casa já conhecesse o peso dos seus passos.

Na Sala do Acolhimento, ninguém lhe pediu explicações.

Apenas afastaram uma cadeira e colocaram diante dela uma caneca de chá de ervas. O vapor subia lentamente, levando consigo um perfume antigo, parecido com quintal molhado e colo de mãe.

Havia tantos pensamentos dentro dela que pareciam pássaros assustados, batendo as asas uns contra os outros.

Ela tentou organizá-los.

Não conseguiu.

Então segurou a caneca entre as mãos e, pela primeira vez em muitos dias, desistiu de resolver tudo.

O relógio continuou marcando as horas, mas já não parecia persegui-la.

A respiração encontrou um ritmo mais lento.

O coração, ainda cansado, percebeu que não precisava se defender naquele lugar.

E, no silêncio entre um gole e outro, ela se lembrou de uma coisa que julgava perdida:

um sonho antigo, guardado antes que a vida se tornasse somente obrigação.

Ela ainda não sabia o que faria com aquela lembrança.

Mas algo havia mudado.

O cansaço continuava ali — apenas já não ocupava tudo.

Nesse instante, uma luz acendeu-se no cômodo seguinte.

E da Cozinha dos Afetos chegou um aroma que ela reconheceu antes mesmo de saber de onde vinha.




Amanhã, a Casa nos conduzirá até a Cozinha dos Afetos.