As histórias que a Casa conta
Parte 1 — A porta que soube esperar
Ela chegou no fim da tarde, trazendo nos ombros um cansaço que ninguém podia ver.
Antes mesmo de tocar a aldrava, a porta se abriu devagar, como se a Casa já conhecesse o peso dos seus passos.
Na Sala do Acolhimento, ninguém lhe pediu explicações.
Apenas afastaram uma cadeira e colocaram diante dela uma caneca de chá de ervas. O vapor subia lentamente, levando consigo um perfume antigo, parecido com quintal molhado e colo de mãe.
Havia tantos pensamentos dentro dela que pareciam pássaros assustados, batendo as asas uns contra os outros.
Ela tentou organizá-los.
Não conseguiu.
Então segurou a caneca entre as mãos e, pela primeira vez em muitos dias, desistiu de resolver tudo.
O relógio continuou marcando as horas, mas já não parecia persegui-la.
A respiração encontrou um ritmo mais lento.
O coração, ainda cansado, percebeu que não precisava se defender naquele lugar.
E, no silêncio entre um gole e outro, ela se lembrou de uma coisa que julgava perdida:
um sonho antigo, guardado antes que a vida se tornasse somente obrigação.
Ela ainda não sabia o que faria com aquela lembrança.
Mas algo havia mudado.
O cansaço continuava ali — apenas já não ocupava tudo.
Nesse instante, uma luz acendeu-se no cômodo seguinte.
E da Cozinha dos Afetos chegou um aroma que ela reconheceu antes mesmo de saber de onde vinha.
Amanhã, a Casa nos conduzirá até a Cozinha dos Afetos.