Tudo dentro de você — e ao seu redor — parece se transformar em uma grande névoa escura.
Eu atravessava um período muito delicado, aprendendo e reaprendendo a cuidar de mim, enquanto seguia atentamente todas as recomendações médicas.
Tentava me reorganizar por dentro, mas, quando olhava para minha família, para as pessoas que amo e para os assistidos do Recanto da Luz Divina — Casa para Todos, já não conseguia enxergar uma maneira de ajudá-los.
E isso me desesperava.
Mas havia algo que me doía ainda mais:
eu também já não sabia como ajudar a mim mesma.
Sentia-me incapaz.
Sem respostas.
Sem sabedoria para atravessar aquele momento.
Sem conseguir perceber a presença daqueles que me amparam.
Dentro de mim, nascia um silêncio frio e paralisante.
Como se tudo o que existia em mim tivesse desaparecido.
Então, chorei.
Chorei muito.
Um choro que talvez jamais tivesse me permitido chorar antes.
Chorei tudo o que vinha tentando suportar em silêncio.
Falei com Deus de coração aberto — tão aberto que eu podia sentir minha própria alma chorando junto comigo.
Solucei até o cansaço me vencer.
E adormeci entregando a Deus aquilo que minhas mãos já não conseguiam sustentar.
Naquela madrugada, despertei com uma ideia nascendo dentro de mim.
Não como uma resposta pronta.
Mas como um fio de luz atravessando a escuridão.
Ainda tateando no escuro, insegura e sem forças, levantei-me e comecei a escrever.
Durante quase uma semana, trabalhei nessa prece como quem recolhe, com delicadeza, as partes de si que haviam se perdido pelo caminho.
A cada palavra, eu sentia que não estava escrevendo apenas sobre a minha dor.
Eu tocava também as dores da minha família.
As histórias dos que vieram antes de nós.
Os silêncios que atravessaram gerações.
E o amor de tantas pessoas que desejam ajudar, mas já não sabem de onde retirar forças.
Naquelas palavras, eu conseguia tocar o que antes parecia inalcançável.
Foi desse lugar que nasceu a *Prece Ancestral*.
Do momento em que eu já não tinha respostas, mas ainda conseguia rezar.
Do instante em que reconheci que também precisava ser cuidada.
Da esperança de que talvez a cura não comece quando sabemos o que fazer, mas quando permitimos que nosso coração seja acolhido antes de continuar.
Ainda estou ouvindo minha alma.
E, com o coração, sigo preparando essa prece para que ela se transforme em um livro de oração, memória e amor.
Por enquanto, guardo sua versão completa com o respeito que se oferece a algo nascido entre lágrimas, entrega e presença divina.
Guardo-a como quem sustenta nas mãos algo muito delicado.
Uma semente.
Uma bênção.
Um fragmento de luz recebido quando tudo em mim parecia escuro.
Hoje, quero compartilhar com vocês como essa obra está sendo concebida.
Talvez, algum dia, ela também chegue até você como chegou até mim naquela madrugada:
não para apagar todas as dores,
mas para recordar que, mesmo quando tudo parece ter desaparecido, ainda pode existir um pequeno fio de luz procurando nascer dentro de nós.
Quem sentir no coração o desejo de acompanhar essa travessia pode escrever *PRECE*.
Guardarei cada nome com carinho.
Porque algumas orações começam a nos acolher muito antes de estarem prontas.