Ah, minha amiga, meu amigo... seja muito bem-vindo à Casa da Memória.
Entre.
Não precisa ficar aí na porta.
Sente-se um pouco.
Você aceita um chá?
Aqui em casa nós gostamos muito de chá. Há dias em que ele acompanha uma conversa demorada. Em outros, fica esquecido ao lado de um livro aberto, já quase frio, porque alguma lembrança resolveu chegar antes do próximo gole.
Mas existe um de que gostamos especialmente.
Nós o chamamos de chá do calor, da alegria e da esperança.
Não porque faça milagres — embora algumas coisas simples tenham esse estranho poder de melhorar um instante —, mas porque sua mistura de rooibos, tangerina, laranja, limão, canela, gengibre, cardamomo e camomila enche a casa de perfume enquanto fica pronta.
Primeiro chegam os cítricos, vivos, claros, quase solares.
Depois vêm a canela, o gengibre e o cardamomo, trazendo aquele calor que parece acender alguma coisa por dentro.
E, no fim, a camomila pousa sobre tudo com delicadeza.
Talvez seja por isso que gostamos tanto dele.
Porque há dias em que precisamos exatamente disso: um pouco de calor, um pouco de alegria e alguma esperança suficiente para continuar.
E há aromas que fazem isso conosco.
Chegam antes das palavras.
Abrem gavetas.
Chamam pessoas que já não estão sentadas à mesa.
Devolvem tardes que pensávamos ter esquecido.
Talvez seja por isso que esta casa exista.
A Casa da Memória não foi construída apenas com paredes.
Foi construída com aquilo que ficou.
Uma receita anotada num papel qualquer.
Uma oração repetida tantas vezes que o coração aprendeu antes da boca.
Uma fotografia.
Um animal que nos ensinou uma forma de amor para a qual ainda não tínhamos palavras.
Uma erva crescendo num vaso.
Uma despedida.
Uma escolha.
Uma mesa onde alguém um dia se sentou conosco.
E também com aquilo que precisou partir.
Porque memória não é somente o que guardamos.
Às vezes, é justamente aquilo que precisamos olhar uma última vez antes de conseguir devolver.
Por isso esta Casa tem cômodos.
Há uma Sala das Lembranças, onde as histórias de quem veio antes de nós ainda encontram lugar.
Uma Cozinha dos Afetos, porque algumas das nossas memórias mais profundas têm cheiro, gosto e receita.
Um Quarto do Silêncio, para aquilo que só conseguimos ouvir quando o mundo diminui o volume.
Um Altar das Entregas, porque há pesos que não precisam de mais força. Precisam ser devolvidos.
Uma Porteira Sagrada, porque aprender a abrir também exige aprender a fechar.
Há Curadores de Quatro Patas, que sabem coisas sobre presença que talvez nós ainda estejamos tentando compreender.
E um Corredor das Ervas Sagradas, onde a terra, as folhas e os antigos saberes continuam contando suas histórias.
Mas não tenha pressa de conhecer tudo hoje.
Casa de verdade não se conhece numa visita guiada.
Conhece-se ficando.
Voltando.
Descobrindo aos poucos qual cadeira recebe melhor o nosso corpo e em qual janela a luz entra mais bonita no fim da tarde.
Talvez aconteça o mesmo aqui.
Alguns dias você virá pela memória.
Em outros, pela fé.
Talvez chegue procurando uma resposta e encontre apenas uma pergunta melhor.
Ou talvez leia uma frase e pense:
“Era isso. Eu só nunca tinha conseguido dizer.”
Se acontecer, fique mais um pouco.
É para isso que acendemos as luzes.
É para isso que escrevo.
E agora...
seu chá ainda está quente.
Bem-vindo à Casa da Memória.
Esta memória habita a
Sala do Acolhimento