TRANSCENDÊNCIA
São duas horas, escuto o silencioso barulho da madrugada.
Sinto que todas abstrações do infinito jorram em mim seu curso. Nesse momento
não tem presente, futuro ou passado. Sinto como que transmutado e ilimitado.
Não, não tem nada que ultrapasse esse sensação de “ser”. Nesse instante,
intensamente vivo. Sinto concretizar em mim o que estava nas reticências.
Choro! Mas lá no fundo o som desse choro se ricocheteia e seu eco volta num
estrondoso sorriso. Então, rio, rio às gargalhadas e descubro que é esse o verdadeiro
riso: O eco de um choro.
Sinto nesse momento que não preciso usar disfarce, deixo
claro que me libertei, me vinguei de todas as vinganças que não vinguei.
Prosperei. Não existe bem- mal, angústia-paz, moral-imoral, igual-diferente.
Nesse momento ultrapassei tudo, transcendi.
Sem essa de impulsos contidos. Nesse momento sou um
super-homem sem ser diferente de ninguém, só não sou mais estático, vou além.
Nesse momento não sei exatamente o que estou fazendo:
Externando o meu ser? Descrevendo? Só sei que transbordo todas as minhas
convicções, fazendo barulho nas entrelinhas. Nesse momento os conflitos de
minha insegurança lutam com a convicção de minha transcendência. O que escrevo
agora é o resultado dessa luta que não consigo reter dentro de meu ser. Estou
transbordando. Pouco me importa saber se essa vazão é dissonante, sem nexo, sem
poesia, mas dos meus poros exalam o que eu queria.
Charles Canela
