O acontecimento continua sendo o mesmo.
Mas, para colocá-lo no papel, precisamos escolher palavras.
Lembrar o que veio antes.
Perceber o que sentimos.
Relacionar uma coisa à outra.
Decidir o que aquilo passou a significar.
Talvez seja por isso que alguns cadernos se tornam muito mais do que cadernos.
A psicologia chama parte desse processo de construção narrativa: quando transformamos experiência em história, não estamos apenas arquivando o passado — estamos tentando organizá-lo para compreendê-lo.
Hoje, olhando para registros de diferentes fases da minha vida, percebi uma coisa que me encantou:
ali não estavam guardadas apenas informações.
Estavam os caminhos pelos quais fui aprendendo.
Orações.
Ervas.
Símbolos.
Ritos.
Estudos.
Experiências.
Coisas em que ainda acredito.
E outras que a própria vida me ensinou a olhar novamente.
Foi quando compreendi por que a ideia de um grimório me toca tanto.
Não como um livro de fórmulas mágicas.
Mas como um lugar vivo para reunir saberes, investigar suas origens, registrar experiências, corrigir entendimentos e continuar acrescentando páginas enquanto também continuamos mudando.
Talvez todos nós precisemos, de alguma maneira, de um lugar assim.
Um lugar onde possamos olhar para a própria trajetória e perceber:
“Eu não passei apenas por tudo isso.
Eu aprendi enquanto passava.”
E existe alguma coisa profundamente fortalecedora em descobrir que dentro da nossa própria história já existe conhecimento.
Talvez hoje valha abrir uma página em branco e perguntar:
O que a vida já me ensinou que merece não ser esquecido?
Esta memória atravessa a Porteira Sagrada.